ARTIGO ABORDA O MONITORAMENTO DE DROGAS ILÍCITAS EM ÁGUAS RESIDUAIS DA BAHIA
O que acontece com os restos de medicamentos e drogas que o corpo humano elimina? Eles não desaparecem: seguem para o esgoto e, muitas vezes, acabam chegando aos rios e ao mar, mesmo após o tratamento da água.
Um novo estudo brasileiro desenvolveu uma técnica inteligente e mais sustentável para detectar essas substâncias — muitas vezes presentes em quantidades ínfimas, equivalentes a poucos grãos de sal em uma piscina olímpica. Utilizando o método de microextração dispersiva em fase sólida (D‑μ‑SPE), os pesquisadores conseguiram extrair e concentrar compostos como cocaína, anfetaminas, canabinoides e opioides (incluindo o fentanil) diretamente de amostras de esgoto, com uso mínimo de solventes e geração reduzida de resíduos — um avanço significativo para a química verde.
Com essa nova ferramenta, a equipe analisou amostras reais de esgoto coletadas em Salvador e Porto Seguro, dois dos principais destinos turísticos da Bahia. O resultado foi um verdadeiro “raio‑X químico” do que moradores e visitantes estão consumindo. A cocaína e seus metabólitos apareceram com frequência, o THC também foi detectado, e o fentanil — um opioide extremamente potente — surgiu mesmo em níveis de traço. Além disso, o método permitiu identificar dezenas de outras substâncias, como cafeína, nicotina, ansiolíticos e medicamentos cardiovasculares, mesmo sem padrões químicos disponíveis para todas elas. Essa capacidade de suspect screening é um diferencial crucial.
Do ponto de vista da toxicologia forense, a abordagem também se destaca: ao detectar e confirmar substâncias psicoativas e seus metabólitos em concentrações ultrabaixas, o método pode auxiliar investigações sobre padrões de consumo ilegal, exposições acidentais ou intencionais, além de apoiar a identificação de contaminantes em amostras biológicas e ambientais relacionadas a cenários criminais.
O estudo demonstra que é possível monitorar o consumo de drogas, avaliar a contaminação ambiental e gerar inteligência forense de forma mais eficiente, econômica e ecológica — contribuindo para políticas públicas mais assertivas e para a proteção da saúde e dos recursos hídricos.
O CRF‑BA parabeniza os autores pelo trabalho pioneiro e pela contribuição científica de grande relevância para a saúde pública e para a preservação ambiental.







